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terça-feira, 16 de junho de 2009

Apenas uma palhinha...


Um dos meus escritores favoritos, um dos meus livros favoritos, falou sobre uma dificuldade enfrentada na Copa do Mundo de futebol de 1998, na França. Com vocês, o GENIAL, Luís Fernando Veríssimo, e sua crônica, EMPATIA...



EMPATIA
Nós, os credenciados, éramos invejados. Pertencíamos à ordem dos que entravam onde e quando quisessem, à casta dos imbarráveis. Quem nos visse na rua com nossos emblemas de privilégios pendurados no pescoço podia desconfiar que eles nos davam acesso até as últimas intimidades do Ronaldinho. Acima de tudo, tínhamos o que nenhum torcedor comum tinha, a certeza do melhor lugar no estádio com mordomias inimagináveis por um não-credenciado. Nem os não-credenciados certos de que pelo menos entrariam nos estádios tinham direito a essa certeza, já que muitos descobriram na chegada que suas entradas prometidas não existiam.
Antes do jogo Brasil e Chile, o maior escândalo desse mundial chegou aos credenciados, que tiveram uma amostra do que passam os pobres torcedores enganados. Além da credencial no peito, os jornalistas precisam de uma entrada para a tribuna de imprensa, com o número do seu lugar. Havia mais requisições para postos de imprensa do que postos no Parc des Princes, o critério usado para distribuir os ingressos para uns e deixar outros numa lista de espera não ficou claro, e o resultado foi o fim da nossa empáfia. Houve brigas, protestos – enfim, cenas rasteiras entre os privilegiados, tudo por falta de previsão dos organizadores. No fim, entrou quase todo mundo, o que só prova a falta de bom senso inicial. Pena, porque tudo estava funcionando muito bem até agora. Pelo menos para a turma do crachá.
Crônica originalmente publicada em:
VERISSIMO, L. F. (1999). A Eterna Privação do Zagueiro Absoluto. Ed. Objetiva, Rio de Janeiro. (P. 88-89)

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